
Autoria de Antônio Augusto Lemos Rausch, Mestre e Doutorando em Psicologia (UFMG) e integrante do Nuh.
O fim das eleições traz novamente à tona um dilema estrutural para o campo progressista brasileiro: a relação ambivalente com o campo religioso. Nos últimos dias, no centro desse debate está a estratégia da campanha de Lula frente ao crescimento e à capilaridade política do cristianismo (e particularmente os evangélicos) no Brasil. Ao mesmo tempo, gênero e sexualidade na arena pública são tomados como temas malditos, e pautá-los frequentemente têm levado a acusações de “identitarismo”. Mais do que uma disputa por votos, o pleito evidencia os limites de uma acomodação pragmática que insiste em separar a economia da moral, que acaba por negligenciar a disputa pelos sentidos cotidianos da vida política.
Seja de esquerda ou de direita, no Brasil, ambas as vertentes políticas estiveram sob forte influência de ideologias religiosas cristãs. O trabalhismo brasileiro é profundamente fundado na base católica da teologia da libertação, assim como o tradicionalismo católico constitui a base moral da direita brasileira. Os evangélicos tornaram-se um grupo expressivo a partir da segunda metade do século XX e aceleraram sua expansão no século XXI mediante a plataformização e o consumo de mídia (como músicas em novelas, álbuns com milhões de cópias vendidas e shows financiados por prefeituras).
Antes do avanço evangélico, já havia uma base católica consolidada nas instituições brasileiras, a qual sustenta ideologicamente desigualdades de classe, gênero e raça na sociedade. Vale lembrar que o sistema econômico brasileiro guarda profundas relações com o modelo escravocrata racializado de base católica (inclusive no que tange à transferência geracional de riqueza) e que a transição para o trabalho assalariado não implicou redistribuição. Já a expansão evangélica ao longo do século XX concentrou-se inicialmente entre as classes de menor renda, expandindo-se posteriormente para as classes médias e altas. Esse movimento contribuiu para a estratificação do campo religioso em termos de raça e classe no Brasil, além de reforçar o estereótipo da religião evangélica como um fenômeno associado exclusivamente à pobreza.
O cenário eleitoral atual não decorre apenas de uma “grande influência cultural dos evangélicos” entre a população, mas é fruto direto da atuação do Estado brasileiro, com suas constantes concessões e alianças com instituições católicas e evangélicas. Como estratégia eleitoral, o trabalhismo brasileiro frequentemente silenciou essas divergências e não contrapôs narrativas ao poder religioso atuante sobre a sociedade. Com isso, o discurso cristão conservador circulou livremente nas esferas estatais e sociais, ampliando sua capacidade de influência.
O erro tático residiu em desconsiderar a íntima relação entre as chamadas “pautas culturais” e “pautas econômicas”. A Igreja Católica historicamente esteve alinhada às elites brasileiras e sustentou o discurso anticomunista durante a ditadura militar. Do mesmo modo, as igrejas evangélicas no Brasil transformaram-se em grandes corporações isentas de impostos que, em um processo de transnacionalização, movimentam recursos milionários por todo o país.
Compreende-se, assim, por que é inviável separar essas dimensões ou adotar a lógica de que “após alcançar a hegemonia, pautam-se os temas socialmente sensíveis”. Não se trata meramente do grau de abertura da sociedade para debater certos tópicos ou se aliar aos direitos da população LGBT, mas de reconhecer que a imposição da moralidade cristã atua como instrumento de manutenção e expansão do poder das elites nacionais, do Vaticano e das corporações religiosas sobre a sociedade. Quanto mais se cede com o intuito pragmático de angariar votos, mais poder institucional é concedido aos grupos que defendem os interesses dessas elites.
Além disso, nenhuma revolução é definitiva, e as tensões internas de uma sociedade continuam a existir mesmo após uma ruptura revolucionária. Não por acaso, na teoria marxista formulou-se o conceito de “ditadura do proletariado” como uma etapa transitória entre o socialismo e o comunismo. A própria constituição da classe trabalhadora enquanto identidade política — isto é, o reconhecimento do proletariado como unidade — desdobra-se em meio aos conflitos já existentes na sociedade.
O problema surge quando qualquer divergência que ameace essa identidade de classe — tomada como um universal homogêneo — é desqualificada como “ideologia reacionária” ainda na fase de organização do projeto político. Por exemplo, a reivindicação por liberdades sexuais é por vezes acusada por setores da esquerda tradicional de importar valores do liberalismo estadunidense, assim como pautas feministas são frequentemente secundarizadas em partidos progressistas sob a alegação de não representarem os interesses gerais da classe.
Nesses casos, nem sequer se trata de um projeto revolucionário, mas de estratégia eleitoral e de atuação nos quadros da democracia liberal. Aliar-se a grupos conservadores por meio do silenciamento dos direitos sexuais e reprodutivos provou ser uma estratégia ineficaz no contexto político brasileiro. Isso ocorre porque essa abordagem apenas adia uma contradição inerente à própria classe trabalhadora: ela é estratificada e atravessada por marcadores culturais e históricos que extrapolam a dimensão estritamente econômica dos conflitos de produção.
Isso não significa descartar o cristianismo na elaboração de um projeto político progressista, mas reconhecer que ocultar as contradições entre um projeto de sociedade igualitário e a hegemonia cristã não produz a cooperação esperada. Assim como existem contradições no seio da classe trabalhadora, elas também estão presentes no cristianismo como religião e instituição. Leituras bíblicas de caráter anti-extrativista podem servir como ponto de diálogo com o cristianismo. No entanto, é preciso analisar a interpretação das escrituras em articulação com a dimensão material das igrejas no capitalismo e com o papel do cristianismo enquanto ideologia da classe dominante.
Por fim, os atores religiosos que ascenderam ao poder por meio dessa política de conciliação não representam os fiéis que poderiam se beneficiar de uma sociedade pautada por valores cristãos comunitários. Pelo contrário, as redes de comunicação de massa projetam lideranças políticas e religiosas alinhadas aos interesses corporativos das igrejas. A atuação da bancada evangélica no Congresso reflete essa dinâmica ao opor-se não apenas a pautas morais, mas também a propostas de justiça social sob a justificativa de combate ao “comunismo”. A estratégia colaboracionista acaba por encobrir as divergências internas do cristianismo, uma vez que fortalece a ideologia dominante na superestrutura e consolida o poder das lideranças religiosas na infraestrutura do capitalismo.
Para a campanha de Lula, vencedora do pleito de 2026, o desafio a partir de agora não é apenas negociar com cúpulas religiosas em busca de neutralidade política, mas disputar o sentido cotidiano da vida. Enquanto a direita consolidou sua hegemonia moral associando a pauta de costumes à segurança e à ordem, a estratégia de apaziguamento das divergências na esquerda ‘peca’ ao separar a urgência de pautar as políticas de bem-estar social dos discursos que disputam a hegemonia moral de uma sociedade.
